De Lucijone para o poeta

Estou em casa para comemorar minhas vitórias e meus fracassos. É aqui que me reconheço. Por que metade de mim é alegria irresponsável e a outra metade preocupação com coisas que não tenho domínio. Uma parte é fé, confiança de misericórdia, é poliana encarnada em filha de baiano com paulista. Outra parte é dureza de um coração imigrante, é ponderação em escutar e calar, é postura forte de to nem aí para o que vão dizer. No meio disso tudo sobrou algum espaço para releituras, escolhas e bagagens individuais.

Com quatro anos de idade chorava com medo da velhice, por não querer passar a vida toda em uma casa velha, pelo meu gato que dormia ao relento, e por tudo que eu perdia enquanto era obrigada a ir para a cama dormir. Hoje tento não ligar demais para o envelhecimento apesar de sabe-lô batendo na porta, a noção de casa está bem mais subjetiva que aquelas paredes sem pintar de décadas atrás, e estou tão solta no mundo que nem um bichano tenho para chamar de meu.  Contenho o choro mesmo quando penso em tudo que estou perdendo quando resolvo ir dormir sozinha na minha cama por livre e espontânea vontade.

Os anos passaram e fui me vendo cada vez mais neles. Gestos, idiossincrasias, traquejos. Até me surpreendo, não tive tantos sermões, idealizei seus exemplos. Na humildade de um, nos sacrifícios de outro e principalmente na certeza do seu amor por mim. Isso é absolutamente o que me sustenta em pé até hoje, ainda que rume pelo mundo sozinha carregando a própria carcaça.

Insisto em querer sua aprovação, ainda que eu não possa lhes retribuir em ouro, ou em reconhecimento do mundo aos talentos que eles insistem em acreditar que tenho.

Procurando meu futuro eu me vi no passado. Quero me certificar que não perdi nada bom que herdei deles e que possa ter ficado escondido nessa que fui e que hoje só vejo nas fotos de mil novecentos e nunca mais.

Somos estranhamente felizes. Admiramo-nos em silêncio, dividimos nossas histórias sem grandes exaltações, ora sim ora não respeitamos o tempo alheio, e reclamamos frequentemente de um para o outro. Enfim, família.

***Este texto é dedicado à minha querida amiga Natsu que teve o infortúnio de perder um dos seus mais amados nestes dias.

Postado por Cristiane Tada. Cristiane é uma japa falsificada que adora descobrir coisas novas. É crente nas pessoas e em um mundo melhor livre dos clichês.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para De Lucijone para o poeta

  1. Samara disse:

    Quando abri o blog pensei: De quem é o dia de escrever mesmo?
    Quando li a frase: Com quatro anos de idade chorava com medo da velhice.
    Falei é minha querida amiga Cris Tada…rsrsrs só ela podia se preocupar com algo tão sério aos quatro anos…rsrsrsrs
    Engraçado mesmo é como somos “estranhamente felizes”. E como a cada texto damos enfoque diferente para nossas vidas.
    Somos uma família com certeza…Beijossssssss

  2. Regina disse:

    Belo texto, Cris!! Tenho certeza que ainda que vc não possa retribuir em ouro ou reconhecimento, eles devem estar muito orgulhosos da mulher que você se tornou.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s