Um lugar

Decidi não pensar no meu novo lugar em outubro, mês que me aconteceram muitos imprevistos e poucos minutos para refletir. Então, em novembro, passei a cultivar um leve desespero. Incrivelmente, depois de ter dormido na sala tanto tempo, depois de ter morado de favor (lov u, gil), depois de ter dormido em colchões e mais colchões arrastados… Agora, dormindo numa cama para chamar de minha, com aluguel pago, a pergunta “para onde você vai” não para de martelar minha caixola.
A cidade é muito cara, tudo é caro, potencialmente seguro e possivelmente cômodo. O que sobra é relativamente barato, mas terrivelmente inseguro e totalmente passível de incômodos. Estou numa sinuca de bico. Mariana tornou-se cara para mim, os Jardins não me podem ter, o Sacomã tem uma favela ao lado, o Centro dá medo e meu orçamento só é compatível com o Itaquera. Evito a linha vermelha, mas ela parece sorrir pra mim, de braços abertos, e sussurrar: sorry, dear, c’est la vie…
O contrato vai vencer, o aluguel vai aumentar ainda mais, ainda mais, o clima persiste cinza, os ânimos estão à flor da pele, quem tem um quarto tem sorte e eu divido o meu. Fui num terapeuta esses dias e ele me perguntou onde é que as luzinhas do meu cérebro acendiam.
– Eu… eu não sei. Eu ainda não tenho um lugar para chamar de meu.
Esses dias, no curso de poesia, o professor nos pediu uma palavra concreta e bastante significativa para nós. “Paredes”, foi minha resposta. Preciso de teto, chão e quatro paredes para me abrigar.
A pira do terapeuta, a de que empregamos energia em tudo e compartilhamos energia inclusive com seres imateriais, convenceu-me. Estou esgotada da energia que venho dividindo com os outros, sem um lugar meu, uma espécie de recarregador da minha bateria. Uma vez eu disse que encontrei minha felidade não num lugar, numa pessoa, e é Eduardo que enfrenta os blecautes comigo. Mas até para aproveitar minha felicidade preciso de um lugar. Por isso, talvez, foi tão significativo termos ficado, só os dois, sozinhos numa ilha, a Ilha do Mel em pleno litoral paulista.
A primeira vez que entrei na Avenida Paulista, surpreendeu-me os prédios gigantes e aquele céu de concreto (e um mar de energia para meu terapeuta) parecia me engolir. Decidi vim morar na selva de pedra para vencê-la, para engoli-la antes que ela fizesse o mesmo comigo. Portanto, atualmente estou na fase de encontrar meu lugar. Acredito estar manejando bem os controles. Daqui uns dias chego à final do Super Mario Bros.

Postado por Tatiana. Ainda acredita nas pessoas e que um dia se preocupar com os outros não será tamanha exceção para render matéria de jornal. Anda com fé, de metrô, de salto baixo e meio desiludida com a profissão. Ainda sonha em escrever um livro, embora só tenha dele o título.

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2 respostas para Um lugar

  1. É, é difícil mas vai dar pé neguinha, sempre dá. Amo você, lascada.

  2. Regina disse:

    Eu acredito nesse papo de energia. A cidade grande suga mesmo. Mas há sempre um lugarzinho e, por pior que seja, vai ser seu templo e vc vai aprender a gostar dele e vai cuidar dele pq ele será seu. Força Tati!

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