Síndrome de Peter Pan

Nunca tive aquela enorme vontade de ser grande; de ser adulto.

Sabe aquele fetiche dos garotos de chegar logo aos 18 anos para no dia seguinte do aniversário começar a tirar a carteira de motorista? Pois é, não tive. Tanto que até hoje (pasmem) não dirijo ainda.

Quando passava na sessão da tarde um filme chamado Quero ser grande, com o Tom Hanks, no qual o menino faz um pedido para uma máquina, num parque de diversões, para crescer rápido e no dia seguinte acorda adulto eu ficava imaginando que não colocaria a moeda na máquina e muito menos faria o mesmo pedido, apesar dele se divertir um monte (cena clássica).

Nessa época, mesmo não tendo consciência de que a vida adulta é muitas vezes chata e pesada e mesmo tendo que obedecer as ordens deles, os adultos, eu ainda assim não tinha o desejo de perder minha vida de criança.

Lembro do grau de espanto que eu e um primo ficávamos ao nos imaginar no ano 2000 e tudo por que já teríamos 16 anos.

Canalizar as energias era fácil, minha avó que o diga; aprontava mil coisas na casa dela, como pegar um martelo e furar todos os blocos do muro e espalhar sementes de tanchagem no quintal até virar praga. Ou ainda resolver minhas diferenças com minha irmã cortando o nariz da Barbie dela com a tesoura, ou fazer um espacate na boneca do lado em que as pernas não foram feitas para abrir; claro que isso custou a vida dos meus bonecos da coleção da liga da justiça que foram enterrados em algum lugar do quintal antes de ser cimentado. Tadinhos, ainda hoje penso em que lugar da casa ele jazem.

Ainda não está muito claro se, ao agarrar nessas lembranças, fico com mais medo de envelhecer e todas as vezes lembro de um professor de química que tive que dizia sempre:

– não tenham pressa para crescer, ser adulto é só problemas atrás de problemas.

E realmente, em alguns casos, ele tinha muita razão. Mil contas para pagar, aluguel, juros, CPMF, IOF, declaração de imposto, emprego, IPVA, IPI; alguma dessas coisas parece atrativa?

Comecei a me dar conta que a responsabilidade da vida adulta e as diversões da vida adolescente estavam indo embora quando terminei a faculdade, quando a palavra férias começou a fazer menos sentido que a palavra emprego, quando minhas visitas em Iacri se tornaram mais raras, quando comecei a me emocionar vendo o final de Conta comigo (ouvindo stand by me), quando tomar tererê e jogar truco a noite toda sentado na rua não acontecia mais por que meus outros amigos não estavam de férias ou a dona da casa que íamos, ia ter um bebê.

Ainda guardo todas essas e outras lembranças em lugares especiais e tento sofrer cada vez menos com o excesso de saudosismo desse tempo que passou e com o medo de crescer, ficar velho, não no corpo, no espírito.

Pensando nos meus amigos e no eterno reencontro em que pode ser a vida é que imagino ter descoberto um dos antídotos para essa melancolia do saudosismo.

A cada encontro, seja com os de infância ou com os da faculdade, eu esqueço completamente a idade que tenho e a euforia (e alegria) da presença deles, fazem com que eu acredite que a noite só acaba realmente quando o sol nasce; que meu fígado ainda aguenta todas; que podemos comemorar o reencontro brindando milhares de vezes, incansavelmente, como se ainda estivéssemos na faculdade; que todo problema de grana, emprego e de relacionamento pode ser esquecido numa noite insana e surreal; que a boca pode ter câimbra de tanto dar risadas e de soltar asneira da forma mais despreocupada possível; que dançar, jogar capoeira ou fazer um passo de ginástica artística cabe em qualquer lugar e ocasião; e principalmente que envelhecer não faz o menor sentido quando se tem pontes firmes e sólidas com os momentos passados e felizes da nossa vida.

Em resposta a Lis dizendo que uma hora vamos ter que crescer, eu cito Nílian:

 – NUNCA VAI ACABAR!

Nos vemos em Neverland.

Postado por Fernando Bonfim. Chato, curioso e inconstante.

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12 respostas para Síndrome de Peter Pan

  1. Adorei!!! Não vai acabar mesmo!
    Quanto a cortar as barbies com a tesoura: isso foi cruel! Uma vez Rafael desenhou bigodes em todas minha fotos! Irmãos meninos são uma praga!

  2. Tatiana disse:

    “…e principalmente que envelhecer não faz o menor sentido quando se tem pontes firmes e sólidas com os momentos passados e felizes da nossa vida.”
    Vou guardar.
    Fer, adorei. Acho que estamos todos na mesma fase. Eu sou Peter Pan também, tenho medo de sair de Neverland. E sabe, acho que todos mesmo ainda estão nessa fase. Alguns se acham mais maduros, contam vantagem de saberem todas as respostas, todos os caminhos. Coitados… Não sabem que estão perdendo a melhor parte do caminho.
    Esse teu texto me fez lembrar (de cara não tem nada a ver) um texto que li na Época esses dias. Dizia que nossa geração não sabe perder, não é acostumada com o sofrimento. Em maior ou menor grau acho que não sabemos mesmo, a vida foi bem mais fácil se compararmos à geração anterior. Mesmo assim somos tão inconformados, inquietos. Estranhos, não? Bom, essa divagação fica pra algum boteco no Rio. Quero te ver, hein! Beijo!

    • Tati
      Inconformados, inquietos e estranhos são boas palavras pra nos definir. Realmente acho que estamos na mesma fase por que fui me identificando de uma tal maneira que você nem faz ideia com o seu último texto daqui; de verdade.
      Quanto aos que se acham mais maduros, eles foram multiplicados e tiveram respaldo das redes sociais; lá eles descobriram o segredo do cosmos…é tanta segurança da vida e tantas verdades absolutas hehe.
      Divagamos mais à beira mar então. bjos

  3. Pingback: Pichando no Muro | Vida Real Inventada

  4. Regina disse:

    Fernando, vc sempre consegue me convencer de que a noite só acaba quando o sol nasce!!!

  5. Regina disse:

    Ah Lis, eu tô tentando esquecer….

  6. Samara Reis disse:

    Primeiro, quando vocês estiveram todos juntos? Eu vejo textos e fotos e ninguém me falou nada deste encontro…hahaha
    Segundo, estou muito feliz por não saber o que ainda há por vir. E ao mesmo tempo radiante por saber que todos nós também temos esse turbilhão de sensações: inquietações, incoformismo e estranheza.
    Saudades
    My brother!
    Já te disse hoje que eu te amo? EU TE AMO
    By bokcts 20, 40 ,60 e 120…………bum

    • Regina disse:

      Samy, tua ausência foi sentida, faz tanto tempo que não conversamos!! Mas sei bem que vc estava aproveitando a Oktober! Não se engane, ninguém me falou nada desse encontro tb não! Fiquei sabendo que a Lis ia pro Rio e, como já estava querendo ir, aproveitei a onda! hehehe

  7. Tatiana disse:

    Eu também não fui convidada, Samy! Haha

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