acalma

A ordem era: “não deixe ele ficar conversando muito porque senão vai piorar. Gosta de conversa e cheia de detalhe”. Então sempre que ele começava a contar uma história eu colocava um gelo na conversa soltando uns: “é”, “ahn”, “sei”, continuava a folhear minha revista achando tudo aquilo uma puta falta de educação da minha parte. Colocava um gelo na nossa conversa igual ao que ele revezava de meia em meia hora no seu rosto desfigurado causado por um zero a mais  prescrito acidentalmente pelo médico, era o  remédio “pra afinar o sangue”. Já não bastassem 74 anos que não poupam, nervos do lado direito da face que inevitavelmente ficariam inativos após a cirurgia, ele se via ali sentado, só esperando o tempo passar, o remédio agir, a infecção ceder e com um dos olhos que o inchaço não tomou, observava o olhar de repulsa de quem fosse.

– E você, Sayuri? Precisa se encontrar de novo, num acha?

Por mais prejudiciais que as palavras pudessem ser para a recuperação dele, o bem que elas pareciam que iam fazer não me deixou respondê-lo só com um “é”.

– Mas o que eu posso fazer? O que você faria no meu lugar?

Não tinha arrogância, era dúvida mesmo.

– Eu sei bem como são essas coisas. Não adianta a gente se enganar, tem amor e tem obrigação. Amar a gente ama de longe. Até ama mais de longe.(e riu) Mas a obrigação não. Ela te traz pra perto na marra…

Por um momento eu me vi mais adoentada que ele. Ele disse tudo que eu venho calando, aquelas coisas que você não fala pra nin-guém, nem dá a entender pro seu melhor amigo num desabafo, nem na hora de raiva você vomita nos ouvidos do seu irmão, muito menos escreve num blog.

– … você precisa saber onde chegam os seus limites do amor e da obrigação e lembrar que você tem 20 e poucos anos.”

No meio de tanto sonho, de tanto devaneio, eu fico acalmando meu coração que esperneia aqui dentro, “ali sentado, só esperando o tempo passar, o remédio agir, a infecção ceder”.
Como pode um amor que me deu coragem pra correr pra longe ser o mesmo que puxou a minha rédea que vivia tão solta?

É, é isso. Não é só por amor, afinal eu sempre amei e estive longe. Sim Lis, é por obrigação também. Vê se admite isso a partir de agora. Obrigação não só de “dever”, mas de gratidão, de se imaginar na mesma situação e ter medo, de saber que só eles fariam o mesmo se fosse o inverso.

Talvez alguns de vocês entendam isso, outros não. Eu sei, é uma coisa desconfortável pra parar pra pensar, mas eu te falo, é muito bom conseguir reconhecer isso e a gente só consegue depois de se sentir bicho acuado.

Ah, e você que não me entende, deixa o tempo passar e aí você me conta.

Postado por Lis Sayuri. “Meu corpo tá aqui, mas meu espírito é de lá.”
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3 respostas para acalma

  1. Tatiana disse:

    estou começando a ter medo de escrever nesse blog.

    tocante, vaquinha. até demais pra ler no trabalho.

  2. Samara disse:

    O meu medo de ir além me faz falar que é por obrigação. Mas, na verdade no fundo, no fundo, sempre foi medo. Ao contrário de você amiga, que agora consegue admitir que é por obrigação. Nosso amor vai existir ao quer que estivermos vivendo.rs
    Vou ter que concordar com a Tati, to com vergonha de escrever.
    🙂

  3. A obrigação, nesse caso, é movida pelo coração!
    Tenho um orgulho de ter como colega Djanani, vc não sabe o quanto!
    Sua recompensa virá… Ou melhor, acho que já você já consegue ver… através dos sorrisos de gratidão que deve receber todos os dias! Os mesmos, mas inocentes, que um dia você deu pra eles!
    Deus te abençoe!

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