Chega de saudade… Ou seria desigualdade?

Há uma semana as idas matinais ao Parque Garota de Ipanema passaram a fazer parte da minha rotina. Tenho levado Zé todos os dias até lá. Assim ele pode correr, babar, cavar, rolar na grama e ter quase toda a qualidade de vida de um cão que vive em uma casa.

A localização do Parque é privilegiada, de frente para a Praia do Arpoador, com uma ciclovia que te leva até o Forte de Copacabana. Um parque que abriga diversos tipos de plantas e de seres humanos. Sim, seres humanos! Ali é a casa de muitos. O quarto é dentro de uma pedra, a qual forma uma espécie de gruta. O banheiro fica dentro da densa folhagem, dizem que os “moradores” já colocaram um vaso por lá. A cozinha e a copa são as mesas e os banquinhos de cimento, utilizados para o desjejum, mesmo que na maioria das vezes, no lugar do café se veja cachaça.

Eles são acordados por um despertador duro e doído: o cassetete da guarda – municipal. Um cutucão com força e já estão todos de pé.  Com muita educação enrolam os colchonetes, os papelões, alguns panos que se assemelham a cobertores e os guardam no canto da gruta. Seus pertences misturam-se aos santos, que juntos formam um lindo altar sincretizado. Aos pés do santos algumas oferendas, trabalhos e despachos. Sem um pingo de timidez, Zé roubou uma maça de um dos “trabalhos” colocados no altar. Não deu tempo nem de tentar arrancar de sua boca, em 3 mastigadas a oferenda do santo foi embora.

No pano de fundo disso tudo se ouve “Chega de Saudade”. “Vai minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser…”

Não sei o nome do artista, mas já conversamos umas duas vezes. Ele me disse que o instrumento chama-se Canete ou pelo menos foi isso que eu entendi, porque meu mais novo amigo tem a língua presa.

Como eu sou ignorante musicalmente falando meu Deus!!!! Deve ser por isso que Fernando fez cara de interrogação quando contei a ele o nome do instrumento: “Quê???”

“Ué foi o que ele me disse!”

Tá bom! Agora vou desfazer a cara de interrogação de Fernando. O instrumento chama-se Clarinete! Ahhhhhhhhhh agora sim! Clarinete! Mas ele tem a língua presa gente, juro que entendi Canete! E ora, o músico é ele, se ele disse que é canete, então é canete!

Segundo o músico, o parque é seu local de ensaio. Ele está lá todas as manhãs me presenteando com Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius e toda a MPB de qualidade que você imaginar.

Todos os dias ele está lá, com seu Clarinete, com um sopro forte e afinado, e com a mesma roupa. Peraí, com a mesma roupa? Teria meu mais novo amigo também residência fixa no parque?

Ele disse que fica triste quando chove, um dia a menos de ensaio. Um dia a menos para ganhar dinheiro tocando nas ruas de Ipanema.

“Quem te ensinou a tocar?”

“Aprendi no Internato”

Leia-se FEBEM.

Não conheço de perto a realidade desses internatos, mas estamos cansados de saber que de lá saem bandidos formados. Mas ainda bem que as exceções existem. Embora sejam devolvidas à sociedade com a roupa do corpo, sem lar, sem emprego… Há algumas exceções que não se deixam abater.

Parabéns meu mais novo amigo! Sendo você morador do Parque, da Favela ou da Viera Souto. Parabéns por não se fazer de vítima da desigualdade. Mesmo que um daqueles colchonetes enrolados debaixo da gruta seja seu, o importante é ir à luta e continuar encantando os ouvidos apressados, que circulam diariamente a sua volta sem te notar.

 

 

Postado por Vivianne Marques

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5 respostas para Chega de saudade… Ou seria desigualdade?

  1. Texto lindo! Sensível e atento! Lindo!

  2. Samy disse:

    Acreditei que era um instrumento que eu não conhecia..hahaha…Antes de ler seu texto tava aqui pensando se a coisa ta feia pra mim…com certeza tem pessoas que não estão reclamando e estão em uma situação pior…rs….

  3. Samy disse:

    Amiga minha situação não está nada fácil, mas consegui pensar em pessoas que enfrentando problemas mais graves..

  4. Mais uma vez parabéns! Pelo texto, pelas pertinentes observações e, principalmente por sua sensibilidade. Você deveria escrever TODOS os dias! Seus relatos e crônicas são muito bons!!!

  5. Lis Sayuri disse:

    eu também gosto do jeito que vc conta história, Naza, de verdade. O bom de conhecer quem escreve é que vc sabe exatamente a cara de interrogação do Fernando e a sua cara respondendo numa situação dessa do Canete e rende umas risadas. Eu ri com a frase, “meu mais novo amigo tem a língua presa” só de imaginar como vc disse isso. Às vezes vc nem disse do jeito que eu imaginei, mas se dissesse fazendo a cara que eu pensei eu ia rir, certeza!Haha
    Ai ai, tô com saudade!

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