GENTE DOIDA

Estava voltando do mercado quando lembrei que não havia comprado sabonete. Já no meio da quadra dei de cara com uma farmácia. Lá mesmo comecei a vasculhar as marcas e seus respectivos preços. Enquanto estava agachado conferindo os detalhes do produto eu escuto uma senhora num tom quase nervoso perguntando para um repositor de produtos que estava agachado ao meu lado:

– Você pode atender ou só repõe os produtos? Eu só quero um descongestionante da vick vaporub….Quer vender? Se não, eu procuro outro lugar porque aqui parece que vocês não querem vender….o resto eu me viro e acho sozinha.

E assim foi. Enquanto dava uma olhada em outros produtos, essa senhora – magra, de longos cabelos grisalhos e lindos olhos azuis que me fizeram imaginar o quanto ela foi bonita na juventude – finalizou sua compra e permaneceu numa banca de produtos em promoção na frente do caixa, mexendo na sua bolsa e falando sem parar com ninguém e pra todo mundo.

Logo se formou uma pequena fila e eu, junto dos meus sabonetes, entrei atrás de uma mulher que já estava sendo atendida. Atrás de mim se encontrava outra senhora na qual nem prestei muita atenção. Dois caixas ficaram livres e eu e a senhora atrás de mim fomos atendidos. Logo que terminei a compra parei ao lado para ver outros produtos que estavam pendurados entre o caixa que eu estava e o da senhora da frente e de repente começo a escutar um resmungo que, ao primeiro instante, não imaginei que fosse pra mim.

A senhora para a caixa:

– Pera aí, minha filha por que eu estou sendo atropelada aqui. Hoje em dias esses jovens não respeitam mais ninguém…eles andam nas ruas passando por cima de todo mundo e não querem nem saber dos mais velhos e dos idosos.

Eu, que estava a uns bons centímetros de distância dela, nem imaginei que fosse comigo até que ela olhou de lado e continuou nas suas lamúrias contra a juventude rebelde e sem educação de hoje, canalizando sua ira em mim. Fiquei bem quieto, claro. Não ia discutir e convencer aquela senhorinha que eu nem sequer havia encostado no fio da lã do casaquinho rosa chá de tricô que ela trajava nos 35 graus que fazia no Rio de Janeiro.

Enquanto ela fazia suas reclamações para a caixa que passava os produtos, a primeira senhora da história ainda continua na banca de produtos da frente da loja mexendo na bolsa num eterno diálogo consigo mesma, desde o momento que ela entrou na farmácia. Ao escutar a senhora no caixa reclamando do meu suposto atropelamento ela no mesmo instante se coloca na conversa e solta um:

– Tudo isso por que seu filho é um drogado….isso mesmo, um drogado. Por que se você tivesse internado ele no início ele não estaria assim agora. Tem que colocar na clínica a primeira vez que ele experimenta… é assim minha filha. Eu mais que de pressa peguei meus sabonetes e corri pra casa e deixei elas que são doidas que se entendam.

Teve também o cara do supermercado que entrou na minha frente na fila e quando eu fui reclamar ele disse que não tinha me visto ali. Então eu pensei e não falei – deve ser por que eu acabei de me materializar. Resmungando horrores e dizendo que ele não ia sair de lá por nada o cara não olhou mais para trás e persistiu no lugar da fila. Acho que os olhares das pessoas em volta junto do meu silêncio em relação à discussão dele o fizeram se sentir mais incomodado e num ato de fúria ele vira para trás e fala – pode ficar. Joga a cesta de compras no chão e vai embora.

Pouco tempo depois presenciei o episódio de dois franceses que começaram a rir de uma carioca num dia de TPM também na fila do supermercado. A ingênua francesa tentando se explicar num português engasgado como eu falando a língua dela, diz pra carioca que o amigo dela estava rindo por que ele achava que ela era homem, ou seja, travesti. A carioca de TPM não só avisou que ela não estava num bom dia como deixou claro que não custava nada pra ela ir até lá e enfiar a mão na cara do amigo francês. E no meio disso tudo proferia coisas, para o mercado todo escutar, como:

– Eu não tenho pinto não, mas tenho um vibrador gigante aqui na bolsa que tenho certeza que seu amigo vai gostar. E continuou com mais algumas sutis obscenidades que eu julgo não ser necessário reproduzi-las aqui.

O ultimo caso engraçado que aconteceu foi esta semana quando fui visitar o centro cultural do banco do Brasil e resolvi assistir uma sessão chamada cinesul de filmes latino-americanos que está tendo lá. A sessão que era de graça começava às duas da tarde e o filme se chamava Aballay, o homem sem medo.

Na sala estava eu e mais uma porção de velhinhos. Acontece que durante o filme uma senhora bem velhinha mesmo, interagia com as cenas em vários momentos e sempre monossilábicamente.

A cena era um cara sacando uma faca para enfrentar o bandido e o bandido sacando uma arma e então a velha soltava um – ÁHHHH! – como quem queria dizer SE FERROU. Depois a cena era o heroi do filme matando um dos bandidos com um pedaço de madeira enfiado na garganta e a velha – UHHHH! Como quem diz QUE NOJO! No meio do filme há uma emboscada e conseguem encurralar o verdadeiro vilão e a velha como se estivesse na sala de casa fala – ÉÉÉÉÉHHHH! Como quem diz TOMA ESSA! Antes de terminar o filme ela sai da sala e vai embora. Acho que foi muita emoção para o coração dela.

Todas essas experiências só me fazem ter certeza de como cidade grande é berço de gente doida.  Fora todas as outras que vejo na praia ou nos noticiários da TV como o ladrão perneta que tentou assaltar um ônibus que uma amiga minha estava, usando um grampeador de papel.

Nessas horas eu sempre penso – Eu hein, gente maluca!

Postado por Fernando Bonfim. Chato, curioso e inconstante.

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5 respostas para GENTE DOIDA

  1. Samara disse:

    A única coisa que posso dizer: Woody Allen ia amar escrever um filme com esses personagens…e você seria o narrador…rs Saudadesss….

  2. Samara disse:

    A única coisa que posso dizer: Woody Allen ia amar escrever um filme com esses personagens…e você seria o narrador…rs Saudadesss….
    Este final de Semana vi um…que me fez lembrar muito essas histórias do cotidiano..rs

  3. Hahahahahahahaha Tem que internar logo que experimenta!

  4. Como pode ter se esquecido da velha alcoólatra do Boteco da Garrafa! Dinheiro pra colocar uma protese nos dentes ela não tem, mas nunca falta pra comprar suas bohemias!!!
    Viva Copacabana e sua terceira idade que sobrevive a base de álcool e prozac!!!

  5. Sério, rolei de rir. Mto!

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