Firme, obstinada, teimosa como uma mula

Fui para a Itália. Voltei da Itália depois de três meses. Não mudaria nada se pudesse fazer de novo. Mesmo tendo sofrido um bocado em ter deixado aqui um par de gente que sentiu minha falta. Precisei disso, precisei dessa falta, precisei dar falta, até mesmo pra sangrar. Hoje cicatrizou. Hoje me tornei também outra pessoa, mais humana, que sabe arranhar outro idioma, que fala de outro mundo com conhecimento de causa.

Penei muito. Passei sufoco aprendendo a cuidar de bebê na marra. Fiz ligação pro exterior gritando pra mãe que o bebê ia morrer sufocado. Entrei em pânico com o primeiro vômito. Tive que dar ordens para um garoto de 2 anos sem saber falar duas palavras na língua dele. Em muitas, quando sozinhos, eu falava em português. Ele que entendesse meu tom de voz. No supermercado, quando ele perguntava o que era cada coisa e eu não sabia o nome em italiano, inventava, ou ele gritava. Aprendi a me virar.

Fiquei muito sozinha, chorei muito. Senti na pele o que é preconceito, intolerância com outros povos, embora hoje eu saiba que o que eu senti não foi um nada perto do que outros imigrantes passam. Conheci muitos lugares, emocionei-me com verdadeiras obras de arte, com monumentos que resistiram ao tempo, às guerras, à ambição humana. Tirei menos fotos quando aprendi a contemplar com meus olhos de ver. Ainda tenho tudo isso na memória. A real, não virtual.

Sinto um pouco de falta. Principalmente do bebê, o mais lindo de todos os bebês mais lindos que alguém poderia conhecer. Sinto falta de aguardar o domingo e saber que com um trem de distância eu desvendaria uma outra cidade que se descortinaria diante de mim e de um mapa, quase nunca bem lido. Percebi, muito mais depois disso, que serei mesmo estrangeira eterna. Não pertenço a lugar algum, nem mesmo à terra onde me criei e de onde sempre quis sair e muito menos à terra aonde acabei de chegar e para onde sempre quis vim. Não sou daqui, nem de lá, não sei para onde vou, mas sei que ainda não cheguei, como diz Lis.

Entre as poucas coisas das quais me orgulho, e tem poucas mesmo, está a de não me arrepender das minhas escolhas. Isso fica mais forte a cada dia e vez ou outra sou testada. Quando me perguntam por que eu voltei da Itália em pouco tempo, espero uns segundos pra ver se algo de mim não se arrepende. Não. Fiz tudo exatamente do jeito certo e o jeito é certo porque foi justamente o que escolhi para mim. Se tivesse tomado outra atitude não seria mais essa vida aqui, não seria mais eu escrevendo esse texto.

E comecei a escrevi esse texto pensando justamente em dizer o porquê de estar aqui. Falhei. Não sei por que estou aqui. Sei até quando. Estou aqui até a coisa me cutucar e eu querer me lançar em outro plano. Estou aqui até me perder, estou aqui até não precisar teimar em me achar. Estou aqui até ficar grande demais para o casulo em que me escondi. Estou aqui até ter saudade, até dormir e acordar pensando na mesma coisa. Estou aqui até a fome ficar maior que o prato. Estou aqui até ter saudade do que ainda não vivi.

Tatiana Lazzarotto ainda acredita nas pessoas e que um dia se preocupar com os outros não será tamanha exceção para render matéria de jornal. Anda com fé, de metrô, de salto baixo e meio desiludida com a profissão. Ainda sonha em escrever um livro, embora só tenha dele o título.

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4 respostas para Firme, obstinada, teimosa como uma mula

  1. Tati, eu queria saber, assim, certinho, o que escolher, o que querer, o que o que… eu sou super indecisa, sempre fui. Tenho saudades do que deixei, mesmo que tenha sido uma escolha que deixei de lado. Não costumo me arrepender mas tenho saudade daquilo que poderia ter vivido. Eu sou confusa, eu sei, e queria ser menos. Mas, como de costume, tenho certeza de que amei o seu texto. Assim como saber das suas novidades, da sua vida. Sou sua fã, menina. Beijos

  2. Klaus disse:

    É isso aí, Tati! O negócio é dar de cara com o muro, jamais ficar sobre o muro e não deixar alguém te dar um “muro” na cara (acho que esgotei os trocadilhos cabíveis)! Se te confortar, também continuo a querer escrever um livro, do qual até tenho uma espécie de sinópse (mas nem o título escrevi)! Quem sabe você pega os textos dos três blogs, junta tudo numa salada mista, e faz um belo livro! Material não falta, muito menos qualidade! Ao menos terá algo para ler aos próximos bambini, na hora de dormir…

  3. Lis Sayuri disse:

    (in) felizes os que sonham mais difícil. Que tem saudade do que ainda não viveu!

  4. Beatriz Xavier Flandoli disse:

    Tatiana,
    Parabéns pelo Blog, pelos textos deliciosos, Obrigada pela emoção de le-los e saborear pérolas como “tirei menos fotos quando aprendi a contemplar com meus olhos de ver”, “nostálgico é doente crônico/ vivente do passado e meio descrente do futuro”; “obrigada por me dar olhos para ver” (para a xará).
    Beijos.

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