Turbilhão de Sensações

Ainda não sei bem como tudo aconteceu. Tinha dias que eu acordava com uma sensação de tristeza que tomava conta de mim. Em outros, eu me sentia bem. Mas, algo incomodava. Quando dei conta, vi que estava perdida. Não conseguia entender um turbilhão de sensações que se apoderava de mim. E, quando percebi, me vi deitada numa cama de hospital e sem entender nada. Não tinha mais vontade de respirar. Não queria mais viver. Não queria entender porque as lágrimas não paravam de cair no meu rosto. Olhava para as faces preocupadas ao lado da cama: família e amigos. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo. Todos ansiavam por uma explicação. Eu não tinha as respostas certas, até porque eu não sabia quais eram as perguntas certas. Enfim, eu perdi a direção, perdi o sentido dentro do meu turbilhão de sensações…

Eu precisava entender, mas às vezes, as respostas não significam nada. Eu era um vaso vazio, quebrado e deixado de lado.

Foi quando eu me vi sentada na sala do psiquiatra, desorientada, com sete quilos a menos, sem saber se era louca ou se simplesmente minhas ideias não faziam mais sentido. Isso não é loucura?

Aos poucos os remédios me fizeram acordar, abrir a janela, sair do quarto e começar a rir. As sessões de terapia ajudavam a entender o que realmente tinha acontecido. Mas eu não conseguia recomeçar…

O desespero tomava conta de mim. O medo de não saber como me comportar diante dos olhares de preocupação me deixava em pânico. E sim, eu pensei em me entregar e deixar de viver. Nunca imaginei uma forma concreta de tirar minha própria vida. Mas desejei simplesmente partir.

De repente… a vida se transformou numa rotina. Acordar, sorrir, trabalhar, trabalhar, comer, dormir…Sim,  eu queria ser tratada como uma pessoa normal. E foi o que aconteceu.

Comecei a ter os problemas de sempre. Sentia-me sobrecarregada no trabalho, desmotivada, com responsabilidades familiares e com a obrigação de ser feliz. Porque é isso que todos querem: serem felizes?

Quando tudo parecia perdido, resolvi traçar um plano. Essa era a resposta para tudo. Um plano. Um novo emprego. Tudo estaria resolvido. A felicidade estaria lá. Outras pessoas, novas regras, novas atividades, nova sala, novo ambiente, enfim, uma nova vida. Um novo recomeçar.

E quando tudo parecia resolvido. O plano falhou. E agora??

Cheguei a me ver no quarto do hospital com os mesmo olhares preocupados. As mesmas perguntas sem respostas.

O Turbilhão de sensações tomou conta de mim novamente. Foi quando eu percebi que não precisava de um novo emprego, de conhecer novas pessoas, de mudar minha vida, porque a minha alma continuava estática.

A mudança era necessária. Mas eu não precisava sair do lugar. Quem diria que tudo estava tão claro o tempo todo. Eu apenas precisava entender quem eu sou realmente. Era preciso crescer, amadurecer e envelhecer.

Eu posso ir muito longe. Minha alma é viajante. Agora eu sei que era uma questão de mergulhar no meu turbilhão de sensações. Eu precisava desistir de tudo, para recomeçar. Eu precisava me reconstruir. Eu precisava entender o que eu sou e o que quero. Hoje, eu sinto o prazer em viver.

Descobri o prazer de me alimentar. Pode até parecer engraçado, mas, antes, nada fazia sentido, e meu paladar também não. Comer tinha se tornado uma obrigação. Sabe aquela sensação prazerosa de experimentar algo doce ou azedo, melado ou amargo?Eu não sentia.

Eu olhava para os meus amigos e não conseguia enxergar o verdadeiro sentido das minhas amizades.

Eu olhava para minha família e não conseguia sentir pulsar a alegria de poder compartilhar momentos ao lado daqueles que me amam e a quem eu amo.

Eu queria tanto amar alguém, e não percebia que meu medo de sofrer afastava qualquer chance de amar uma pessoa.

O desespero de querer ter alguém fez com que eu aceitasse qualquer um que manifestasse interesse por mim.

Escondia tudo dentro de mim. Não queria que todos percebessem o que acontecia comigo. O mais hilário é que todos sabiam exatamente o que estava acontecendo.

Todos sabiam que eu tinha problemas e que me escondia numa aparência às vezes dura, às vezes triste, às vezes perdida e, às vezes obscura.

No entanto, tudo era tão óbvio.

Eu queria parecer uma pessoa feliz. Como diria um amigo, eu era o retrato da vitória e ao mesmo tempo da derrota.

Eu precisava ter fé. Eu sempre tive. Mas por mais que eu rezasse, nada fazia sentido.

Eu vestia uma armadura, para me proteger de tudo e de todos. Queria parecer sempre forte. Nada poderia me atingir. E, ao mesmo tempo, tudo me abalava.

Precisei de inúmeras sessões de terapia. Precisei tomar muita medicação. Fui à várias consultas médicas. Realizei vários exames.

E o diagnóstico era tão simples: precisava, apenas, olhar pra dentro de mim. Estava tudo lá. Um pouco confuso, um pouco distorcido, um pouco estranho, um tanto lúdico e um tanto real. Mas, as repostas, estavam todas lá.

Sim, eu mudei. Mudei pra entender a vida. Pra entender quem sou eu.

Eu estou aberta ao novo. Ao desconhecido. Ao prazer de comer, de amar e meditar.

Minha fé tem me fortalecido todos os dias. Meu prazer de comer tem ido além da fome por alimentos. Parei de me preocupar em encontrar um amor. Mas meu coração está aberto para a vida, mesmo que ela o deixe em pedaços.

Minha alma viajante não quer repousar. Ela quer ir além das fronteiras dos meus sonhos. Eu quero conhecer novos lugares, novas pessoas, novas atividades e novas línguas. Mas, agora eu estou preparada para ficar estática e mesmo assim eu sei que posso ir para muito longe. Dentro do turbilhão eu consigo enxergar tudo de um novo ângulo.

Eu estou tão tranquila. Meu coração está em paz. Não faço planos. Estou pronta para o desconhecido. Estou pronta para amar. Minha alma viaja, mergulha no meu turbilhão de sensações.

Postado por Samara Reis

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6 respostas para Turbilhão de Sensações

  1. Cris disse:

    Samy me deixou sem palavras. Vc é muito corajosa! Seu texto serviu muito para mim. Saudade!

  2. Lis Sayuri disse:

    Poxa, é bem isso Samy, a felicidade tá dentro da gente, não precisa sair do lugar necessariamente pra se encontrar. É clichê, mas é. Falei disso com a Tati e o Gil em sp esses dias, coisas que a gente ouve sempre, mas só se dá conta quando passa. Torço por vc!Sem pena, só orgulho.

  3. Emocionante seu texto. Aliás, to emocionado com o texto de todo mundo. Bom saber de coisas que a gente muitas vezes não fala, mas escreve.

  4. Samy, parabéns. Texto de alma, de sangue, de entranhas, de coração, de pulso, de tudo junto. Também torço! Muito!

  5. Samara! Eu sempre quis te perguntar sobre tudo o que te aconteceu… Nunca o fiz porque não tenho intimidade para isso, mas olha, eu sinceramente fico muito feliz de te ver melhor. E se precisar de qualquer coisa, dá um grito. Tô torcendo por você, também. Se cuida! 😉

  6. Renata Nizer disse:

    Quem não se identifica com seu texto Samy. Quem nunca se viu assim.. Obrigada por compartilhar isso, obrigada principalmente pelas últimas palavras “Estou pronta para o desconhecido. Estou pronta para amar.”

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